HENRIE. Gay bom, gay morto. 2026.

Óleo sobre tela e tecido de tule.

40x40cm.

Esta obra investiga como determinados discursos conseguem transformar violência em algo aparentemente aceitável. A pintura apresenta um autorretrato em tinta a óleo sobre uma tela de 40 x 40 cm, no qual meu rosto aparece machucado, com um olho roxo, um corte na testa e sangue escorrendo pela boca e pelo nariz. Sobre a pintura, há um tecido de tule translúcido com uma releitura da bandeira brasileira, substituindo o lema “Ordem e Progresso” por “Bons Costumes”. A transparência do tecido faz com que a bandeira não esconda totalmente o corpo ferido, criando uma tensão entre aquilo que é mostrado e aquilo que é encoberto.

Meu trabalho parte da minha própria experiência. Escolho pintar a mim mesmo porque é através do autorretrato que consigo compreender minha identidade e transformar vivências pessoais em linguagem artística. As marcas no meu corpo representam não apenas uma agressão física, mas também a violência causada pela homofobia e pelos discursos que, em nome da moral, da família e dos chamados “bons costumes”, continuam excluindo e ferindo pessoas LGBTQIA+. Meu corpo se torna um testemunho dessas experiências e uma forma de afirmar minha existência.

A obra foi realizada em tinta a óleo e o uso do tule acrescenta uma segunda camada à pintura, fazendo com que a leitura aconteça em diferentes planos. Enquanto milhares de pessoas LGBTQIA+ tiveram suas vidas interrompidas pela violência motivada pelo preconceito, meu corpo permaneceu. Por isso, cada autorretrato também é um registro de sobrevivência. Cada camada de tinta reafirma minha presença e transforma a pintura em um gesto de resistência diante das violências que ainda fazem parte da sociedade brasileira.